15.7.10

Discussões...

Por que o 'falar do negro e de suas abrangências' que vão desde a questão étnica, racial até aos pormenores que delineiam toda essa esfera afro-brasileira ou como quiserem alguns, afro, apenas, ainda são pano de fundo para muitas disputas, conflitos e uma continuada luta?
Sinceramente, não sabia que título por, apesar de ser tão simples...

Nunca escondi que meu contato com a causa negra, a partir das comunidades remanescentes, é recente, mas também nunca me furtei ao fator 'observação', 'apreensão' e 'prática'. Nesse ínterim, muitas descobertas foram feitas e uma das observações mais interessantes e corriqueiras dentro desse meio foi quanto ao poder das articulações e como elas podem ser um norteador dentro das ações efetivas, do poder adquirido, dos 'jogos de interesses' e, principalmente, das conquistas - pessoais e coletivas. Como isso se manifesta?

Imaginemos uma entidade negra em prol da causa, atuando no fomento às mudanças, na atuação através de ações que mobilizem, contribuam e trabalhem nessa esfera em um determinado local. Para além disso, as parcerias que viabilizam esse trabalho com financiamentos, apoios, etc. Dessas, contemos quantas de fato atuam na concretização dos objetivos propostos e que não se atrelam apenas a criar um grupo cultural, sem um aporte educacional dentre outros que façam parte de diretrizes traçadas...infelizmente muitas. Os recursos até vem, as propostas até existem, mas não são mais a prioridade. Por outro lado, muitas entidades atuam de forma admirável no combate ao racismo, na busca de melhores e mais justas condições para a população negra brasileira, na luta por políticas públicas, enfim...

O que muitas pessoas não compreendem (e aí, que me corrijam os atores sociais dessas entidades) é que tudo isso, sobretudo quando falamos de grandes esferas (entidades, poderes públicos e privaodos, outros) é que se trata de uma rede muito maior e de mais peso do que se pode supor. Uma linha puxa a outra e no meio tempo disso, os interesses, os conflitos, as realizações. Parece confuso, mas para quem está nesse meio algumas coisas podem ser relacionadas...daí, eu, ainda aprendiz (embora já me possa considerar, modestamente, também um ator social nessa caminhada) acabo sempre me lembrando das palavras de Foucault ao dizer que "nao há relação de poder sem constituição correlativa de um campo de conhecimento, ou que não pressupõe e constitui ao mesmo tempo relações de poder"; então, o que temos, senão um emaranhado e de que forma separar o joio do trigo? Como não compreender em muitos casos uma história de vida distinta que acaba por 'justificar' muitas das debandadas de objetivos, ações e às vezes até mesmo de ideiais? Como não perceber as redes formadas e que envolvem grandes partes que implicam na participação de muitas pessoas, de influências, poder, dinheiro e também ações, trabalhos realizados, cumprimento, em certa medida dos objetivos propostos? Sim, há muitas!

Ok...já falei desse assunto em outros textos e que relevância tem ele mais uma vez abordando tal assunto? Talvez nenhuma! Tenho lido muita bibliografia e biografias de pessoas importantes dentro dessa esfera negra, que vai desde literatura a obras científicas, blogs e outras; mas hoje me veio a lembrança de um ativista negro, poeta, que apesar de já ter lido antes algumas coisas, em virtude de um trabalho, não conhecia a fundo sua obra. Com isso, quis ler mais, conhecer mais (já procurando!), sobretudo das poesias; mas isso é uma outra história...falo do gaúcho Oliveira Silveira, um dos responsáveis pelo '20 de novembro', cuja história é muito bonita e que, infelizmente, não terei o prazer de conhecer pessoalmente porque faleceu em janeiro do ano passado.

Ao ler uma entrevista dada por ele em 2008, imaginei como era essa figura e ao mesmo tempo, como pode ser tão contraditório um movimento que tem como bandeira a causa negra. Não, não faço parte de nenhuma entidade negra ainda, e não, não é uma crítica nem destrutiva nem construtiva às entidades e/ou ao movimento, mas um pensamento solitário, de alguém que nesses últimos dias tem refletido muito sobre o funcionamento de todo esse 'universo' e como ele pode ser mais pessoal, íntimo do suposto outrora. Assim, horas depois de 'reviver' Oliveira Silveira, deparo-me com o poeta Capinam emocionando-se e comovendo a todos os presentes numa palestra, contendo as lágrimas entre sua fala sobre a cultura afro-brasileira, sobre o negro e suas causas, sobre o 'todo' componente de tudo isso. Fez-me bem; e apesar de todas as problemáticas dessa questão, cada vez mais me convenço de que valerá a pena!

Bom...depois disso, nada melhor que deixá-los Oliveira Silveira e o poema "Negrinho":

"Um naco de fumo escuro

negrinho

da tua cor, no monturo.

Um toco de pito aceso

negrinho

cor de teu sangue indefeso.

Muito estancieiro safado

negrinho

formigueiro à beira-estrada.

Contra as manhas dessa malta

negrinho

se vai de cabeça alta.

E peço: clareia o rumo

negrinho

de teus irmãos cor de fumo."

1 comentários:

cacau disse...

sobre a "questão racial" [que já é intitulada de forma estúpida] eu só consigo fazer a seguinte comparação:
- Fulano, eu não gosto de você porque seu olho é verde!

Daí você pensa 'que idiota, ela não gosta porque tem olho verde, ou então vai ver o outro ou tratar de forma diferente. A mesma coisa é a cor da pele, para mim não passa de um simples adereço do nosso corpo, assim como os olhos, o cabelo, as mãos. É só mais um órgão.

Afinal,todos são iguais fisicamente, emocional e psicologicamente. Todos são humanos, e pra mim é isso que importa.

Parabéns pelo seu texto!