12.4.09

"Se você não quer, tem quem queira..."

Dia 7 de abril foi um dia de perda para a cultura maranhense. Perdemos mestre Vieira, aos 88 anos, para uma enfermidade já conhecidade de muitos – um AVC.
Prosador como poucos,
Vieira teve uma história simples, mas repleta de bom humor, de sonoridades, de sorte e poesia!


De uma sinceridade e simplicidade ferrenhas, Antônio Vieira nasceu em 9 de maio de 1920, em São Luis, Maranhão. Nasceu na Rua São João, perto de onde se respirava (e por que não dizer que ainda restam alguns sopros de ar?) cultura, musicalidade, ‘povão’ e intelectuais num mesmo reduto, inocência e causos. Muitos causos. Foi criado por sua madrinha por muitos anos, tendo nessa época vivido uma vida com certo conforto, porém teve que voltar para a casa da mãe com a morte do padrinho e junto com eles lutar pela sobrevivência. Mesmo em meio às dificuldades, sempre foi musical. Uma inspiração que fez com que, ainda menino, compusesse sua primeira música aos 16 anos – Mulata Bonita. De lá pra cá, foram mais de 400 composições, mas Vieira só começaria uma carreira artística já numa alta idade, gravando seu primeiro disco, O samba é bom. Mesmo com o cd pronto, seu Antônio continuava simples, sem muitas mudanças, mantendo uma vida normal, com apresentações esporádicas, além de entrevistas e participações em show’s.


Eu tive o prazer e a honra de tê-lo conhecido e convivido, ainda que pouco, com ele. Sempre que ia para o Centro Histórico, via-o. Era quase uma rotina! Trabalhar com cultura maranhense, num espaço como era o núcleo de Produção da Radium proporcionou-me momentos maravilhosos! - Antônio Vieira foi um desses momentos. Como adoro música e lidar com pessoas como ele (pela musicalidade, simplicidade e a idade carregada de 'heranças'), dá pra imaginar como foi pra mim, este contato.


De todos os encontros com o mestre, duas lembranças me marcaram de forma especial:

a primeira, a visão dele sentado na banquinha de revistas da Praia Grande, quase todos os dias, em seu misto de elegância e simplicidade, a ler e prosear, sempre solícito, conversador, alegre…;

a segunda, uma manhã na produção da Radium, em que ele seria o entrevistado no Santo. Lá estava Antônio Vieira sentadinho, esperando sua hora de entrar...conversa vai, conversa vem…um papo tão bom, que acabou com ele declamando um lindo poema seu, feito há décadas atrás. Eu, toda boba, estava em êxtase por ver a proesa daquela memória afiada e a beleza de suas palavras ditas com tanta sinceridade e emoção, que pareciam refletir sua alma. Sinceramente não sei se as outras pessoas na sala sentiram o mesmo, mas é uma cena que não sumirá de minhas boas lembranças pela vida que segue pra mim!


Agora, Pellegrini não vai mais poder me chatear com o “mulata bonita” e o 'belo partido’ que era seu Vieira! O que é uma pena, pois confesso que gostava quando ele me chateava com isso (rs)…não pelo partido, mas pelo contexto no todo.

Algumas coisas em nossa vida são muito singelas, tanto que nem sempre nos apercebemos delas. E alguns momentos como esses são um exemplo disso. Quem me conhece sabe que pra mim, esse tipo coisa mexe fundo, marca mesmo. E aí, não sei se deve ao que dizem ser a minha ‘velhice de alma’…vai saber?!
O fato é que não fico triste por ele ter partido em si (pois creio nos 'tempos'!), mas por não poder mais ver aquela figura a contar suas histórias, seus 'causos', cantar! Acredito que ele ficará bem! E isso já é um consolo. Resta-nos as boas lembranças e sua bela obra.

Vá em paz, mestre!


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